Introdução
O uso de biológicos se tornou uma ferramenta fundamental na criação de camarões. Desde os anos 2000, essa prática é adotada em diversos sistemas de cultivo, especialmente com o objetivo de melhorar a qualidade da água e controlar a carga orgânica. A principal função do uso de biológicos no sistema de cultivo aquático é promover o equilíbrio da microbiota, reduzir o acúmulo de matéria orgânica e minimizar a toxicidade por amônia. Esses produtos consistem em cepas de microrganismos que ajudam a decompor resíduos e competem com microrganismos patogênicos. Por isso deve-se sempre prestar muita atenção na seleção das cepas corretas, na quantidade aplicada e nas condições ambientais, como temperatura e oxigenação, para garantir que os biológicos funcionem adequadamente e não causem desequilíbrios.
Pontos de atenção
Seu uso para remediar problemas no cultivo de camarão pode parecer uma solução sustentável, mas, se aplicados de forma inadequada ou sem um manejo adequado, esses produtos também podem causar desequilíbrios no ambiente aquático.
Por exemplo, microrganismos introduzidos no ambiente podem competir com os microrganismos nativos do ecossistema. Se as novas cepas se proliferarem de maneira descontrolada ou não se adaptarem adequadamente às condições do viveiro, elas podem desbalancear a microbiota natural. Isso pode reduzir a diversidade microbiana, essencial para a decomposição equilibrada da matéria orgânica e para a ciclagem de nutrientes. Uma microbiota menos diversa torna o sistema menos resiliente a flutuações ambientais, facilitando o surgimento de patógenos.
Bacillus spp., por exemplo, se aplicados em excesso ou em condições inadequadas, podem competir de maneira descontrolada com as cepas nativas. Isso pode resultar em desequilíbrio na microbiota, reduzindo a diversidade de microrganismos naturais essenciais para a decomposição da matéria orgânica e ciclagem de nutrientes. Outro exemplo é o Pseudomonas spp.. Se proliferar em excesso, pode causar um consumo elevado de oxigênio (DBO), levando a hipóxia no viveiro que afeta a saúde dos camarões. Essa competição excessiva pelos recursos ambientais pode gerar uma redução na capacidade de defesa natural dos camarões, tornando-os mais suscetíveis a doenças.
A introdução excessiva de microrganismos liofilizados (aplicados em formato de pó), com seu alto UFC (unidade formadora de colônia), pode resultar em uma superpopulação microbiana, especialmente se os nutrientes necessários para seu desenvolvimento estiverem disponíveis em grande quantidade. Quando a densidade microbiana aumenta de forma desproporcional, ocorre um alto consumo de oxigênio (DBO - Demanda Bioquímica de Oxigênio), o que pode gerar baixa concentração de oxigênio no sistema aquático. A falta de oxigênio estressa os camarões, comprometendo sua saúde e, novamente, facilitando a entrada de doenças. Por isso a importância de entender qual, quanto e porque você introduz microrganismos no seu sistema produtivo.
Certas cepas de microrganismos podem impactar negativamente o ciclo do nitrogênio. Se não houver um equilíbrio adequado entre microrganismos que convertem amônia em nitrito (via nitrificação) e microrganismos que convertem nitrito em nitrato, pode ocorrer o acúmulo de amônia tóxica ou de nitritos no ambiente. Esse desbalanço afeta a qualidade da água e coloca os camarões em risco.
Produtos biológicos comerciais podem conter cepas que não são compatíveis com o ecossistema específico do viveiro. Se essas cepas não se adaptarem corretamente ao ambiente, elas podem não desempenhar a função desejada, como a degradação da matéria orgânica ou a eliminação de compostos tóxicos. Em alguns casos, as cepas podem até interagir negativamente com os microrganismos naturais, gerando compostos prejudiciais ou promovendo a proliferação de organismos patogênicos. Por exemplo, a atividade microbiana excessiva ou mal controlada pode resultar na produção de gás sulfídrico, um gás tóxico para organismos aquáticos, ou de ácidos orgânicos que alteram negativamente o pH da água, afetando a saúde dos camarões e das demais formas de vida aquática.
A eficácia dos microrganismos liofilizados depende de condições ambientais específicas, como temperatura, pH e níveis de oxigênio dissolvido. Se essas condições não forem monitoradas e ajustadas corretamente, os microrganismos podem não funcionar conforme esperado, ou pior, podem proliferar de forma descontrolada, gerando efeitos adversos no ambiente aquático. Uma solução para esse problema é o uso de microrganismos em consórcio que compõem um ecossistema próprio. Geralmente essas soluções são líquidas e certificadas.
Um dos maiores problemas com o uso de microrganismos é a falta de monitoramento contínuo da sua ação no viveiro. Se os parâmetros da água e a atividade microbiana não forem acompanhados de perto, o produtor pode introduzir mais microrganismos ou produtos biológicos do que o necessário, exacerbando o desequilíbrio ambiental. Um desequilíbrio na densidade microbiana pode levar ao aumento de matéria orgânica não processada ou à falta de oxigênio, resultando em impactos negativos na saúde e no crescimento dos camarões.
Conclusão
Embora o uso de microrganismos tenha potencial para melhorar a qualidade da água e reduzir a toxicidade no cultivo de camarões, sua aplicação inadequada ou sem manejo cuidadoso pode criar novos desequilíbrios no ecossistema aquático. O monitoramento contínuo e o controle preciso são essenciais para garantir que esses microrganismos funcionem de maneira benéfica e sustentável.
Desenvolvedor da metodologia do equilíbrio do ambiente produtivo a partir da Tecnologia do Consórcio Probiótico.
