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Informativo técnico · Ciência & Tecnologia

On Farm

Autor
Altamiro Alvernaz
Publicado
2025
Local
Pouso Alto, MG

Produção de produtos biológicos “on farm”: uma nova era na agricultura

A produção de produtos biológicos “on farm” refere-se à fabricação e multiplicação de bioinsumos diretamente na propriedade rural, eliminando a necessidade de comprar produtos industrializados de empresas de biotecnologia. Esses bioinsumos incluem microrganismos benéficos, como bactérias fixadoras de nitrogênio, fungos micorrízicos, leveduras e consórcios microbianos, utilizados para melhorar a fertilidade do solo, proteger as plantas contra pragas e doenças e aumentar a eficiência produtiva.

Esse modelo é uma alternativa ao sistema tradicional de insumos agrícolas, que historicamente tem sido dominado por grandes indústrias químicas. A ideia central da produção “on farm” é permitir que os próprios produtores rurais tenham controle sobre a geração e aplicação de seus bioinsumos, tornando-se menos dependentes do mercado de insumos e reduzindo custos de produção.

Sob uma visão geral, a adoção da produção de bioinsumos na própria fazenda traz diversas vantagens:

  • Redução de custos — a multiplicação de microrganismos na propriedade reduz drasticamente os gastos com insumos agrícolas comprados no mercado, tornando o sistema mais econômico.
  • Autonomia do produtor — em vez de depender de grandes empresas, o agricultor, na teoria, passa a ter controle sobre o que aplica no solo e nas plantas.
  • Sustentabilidade e regeneração do solo — o uso contínuo de produtos biológicos melhora a vida microbiana do solo, promove a reciclagem de nutrientes e reduz a necessidade de fertilizantes minerais e agroquímicos.
  • Menor impacto ambiental — bioinsumos reduzem o uso de produtos químicos sintéticos, diminuindo a contaminação dos solos e corpos d’água, além de favorecer a biodiversidade.
  • Maior resiliência produtiva — propriedades que adotam bioinsumos, seja “on farm” ou industrializados, frequentemente apresentam maior resistência a doenças, pragas e mudanças climáticas, pois seus solos e plantas estão mais equilibrados biologicamente.

Apesar de seus benefícios, a produção de bioinsumos “on farm” também apresenta desafios:

  • Necessidade de conhecimento técnico — diferente de um insumo químico pronto para uso, a produção “on farm” exige que o agricultor compreenda microbiologia, fermentação, controle de qualidade para evitar contaminações e ineficiência dos produtos. Precisa entender exatamente o que está produzindo e quantidades utilizadas. Se não possuir esse conhecimento não terá a tão sonhada autonomia. Começará a ter problemas, perdendo sua autonomia, resiliência produtiva e redução de custos.
  • Risco de variabilidade nos resultados — se não forem seguidos protocolos rigorosos, pode haver variações na composição dos microrganismos, comprometendo sua eficácia no campo.
  • Regulamentação e segurança — no Brasil, há debates sobre a regulamentação da produção “on farm”, pois a falta de padronização pode levar a produtos de baixa qualidade e riscos ambientais e de saúde se não forem bem manejados.
  • Tempo e estrutura necessários — a produção de bioinsumos na fazenda exige infraestrutura mínima (tanques de fermentação, equipamentos de controle microbiológico) e tempo para monitoramento, o que pode ser um desafio para alguns produtores.

Reflexão: estamos realmente preparados para a autonomia biológica?

A produção de bioinsumos “on farm” representa uma quebra de paradigma, desafiando a lógica da dependência de grandes indústrias e trazendo um modelo mais descentralizado e regenerativo. No entanto, exige conhecimento, dedicação e um novo olhar sobre a agricultura.

Se os bioinsumos podem transformar a agricultura em um sistema mais sustentável e independente, a pergunta que fica é: estamos dispostos a trocar a comodidade dos insumos prontos pela responsabilidade de entender e manejar a biologia do solo? Nós seremos responsáveis por aquilo que colocamos no nosso solo em caso de um problema de grandes proporções? E se o problema for com um funcionário da minha fazenda? Serei responsável pelos danos causados? E se em um caso extremo vier a óbito? Estou preparado para as consequências?

A ideia de produzir bioinsumos na própria fazenda, multiplicando microrganismos para aplicação no solo e nas lavouras, é revolucionária. Autonomia, redução de custos e um sistema agrícola mais sustentável são promessas atraentes. Mas será que sabemos realmente o que estamos cultivando nesses tanques de fermentação?

Sabemos que os microrganismos são invisíveis a olho nu. Mas e os metabólitos que eles produzem? Estamos realmente controlando o que está sendo gerado? Bactérias e fungos não trabalham sozinhos – eles interagem, trocam informações genéticas e, em determinados ambientes, podem produzir compostos benéficos... ou potencialmente tóxicos. Será que estamos apenas impulsionando a vida no solo, ou também criando substâncias que podem se tornar perigosas para a saúde humana e ambiental?

Se até mesmo laboratórios altamente equipados e cientistas experientes admitem que conhecemos menos de 1% dos microrganismos do planeta, como podemos ter certeza absoluta do que estamos cultivando em nossas fazendas? Os riscos são reais: contaminação cruzada, proliferação de patógenos oportunistas, geração de metabólitos desconhecidos. Estamos dispostos a apostar cegamente que tudo o que multiplicamos é seguro?

Agora pense: vale arriscar a vida da sua família para economizar na produção agrícola? Será que a busca por um ganho financeiro imediato não pode se transformar, lá na frente, em custos médicos, doenças inexplicáveis, impactos ambientais irreversíveis? Se estamos economizando agora, será que amanhã não gastaremos esse dinheiro no tratamento das consequências desconhecidas da nossa própria experiência?

O futuro da agricultura precisa ser sustentável, mas também seguro. O desejo por independência produtiva não pode se transformar em um laboratório descontrolado dentro da fazenda. O que estamos realmente cultivando nos nossos bioinsumos “on farm”? Autonomia ou um risco oculto que ainda não conseguimos enxergar?

Reflexão final

A multiplicação de bioinsumos “on-farm” tem sido defendida como um movimento revolucionário na agricultura, trazendo independência para os produtores e reduzindo custos. Mas e se essa aparente liberdade for, na verdade, uma armadilha? E se, por trás desse discurso de autonomia, houver um plano bem elaborado, por exemplo, da própria indústria química?

Pense bem: as grandes corporações sempre se reinventam. Elas não combatem mudanças abertamente, mas muitas vezes as apoiam silenciosamente, esperando o momento certo para retomar o controle. O que aconteceria se a multiplicação indiscriminada de microrganismos nas fazendas levasse a uma série de falhas, contaminações e problemas agronômicos? Não seria essa a oportunidade perfeita para a indústria química voltar com força total, oferecendo “a solução definitiva”?

Nos anos 1980 e 90, o Brasil teve o maior programa de controle biológico do mundo, combatendo a lagarta-da-soja (Anticarsia gemmatalis) com um vírus entomopatogênico. Os resultados foram impressionantes, reduzindo drasticamente o uso de inseticidas químicos. No entanto, com o tempo, a produção “on farm” sabotou o próprio programa, a estrutura de produção e a aplicação do vírus foi enfraquecida. Produtores começaram a produzir dentro de suas fazendas os vírus, em busca de autonomia e redução de custos. E o resultado foi o fracasso e problemas.

Será que a história está se repetindo? Os biológicos provaram e provam que são o futuro e o presente. O movimento “on-farm” está crescendo, mas sem o devido controle técnico, abrindo espaço para falhas e distorções. E se, no final, essa multiplicação descontrolada gerar consequências ambientais e agrícolas irreversíveis? Quem estará pronto para “salvar” o produtor quando isso acontecer?

A pergunta que fica é: será que a indústria química está mesmo perdendo com o “on-farm”? Ou será que ela está só esperando o momento certo para retomar o controle e transformar essa aparente revolução em mais um ciclo de dependência química?

No atual momento, penso que primeiro deveríamos solidificar o regenerativo com soluções e, principalmente, manejos, que não corram o risco de termos efeitos colaterais. Nesse sentido o uso de produtos biológicos industrializados seguidos de protocolos eficientes nos dão essa garantia. Após a consolidação, com aprimoramento das técnicas de fabricação e, principalmente, das análises das fermentações de produtos, poderemos migrar para um modelo “on farm”, seguro, e que nos dê a certeza de que estamos trilhando um caminho de segurança, autonomia e redução de custos. Hoje, qualquer um, em sã consciência, não pode garantir segurança no modelo “on farm”. Mas eu acredito que é o modelo do futuro e que devemos nos estruturar para adotá-lo em um futuro não muito longe.

Desenvolvedor da metodologia do equilíbrio do ambiente produtivo a partir da Tecnologia do Consórcio Probiótico.